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Catadores do Jangurussu: imersão na vida

22 nov

Era uma vez um artista que procurava o melhor lugar para pintar um pôr do Sol. Ele percorria uma bela cidade em busca da paisagem apropriada quando, de repente, deparou-se com o local onde era depositado todo o lixo de casas, ruas e estabelecimentos comerciais. Uma montanha de detritos. Sobre ela, crianças e velhos, homens e mulheres cascabulhavam os restos de comida, brinquedos, roupas e o que mais pudesse ser aproveitado. Enquanto o Sol se punha, num misto de cores entre o laranja e o cinza, o cenário obrigava o pintor a pintar. Mas não mais o astro.

Pôr do Sol atrás da rampa

O artista, então, decide mudar-se para dentro do quadro, integrar-se à paisagem, conhecer os “sem-nome” ofuscados pela miséria extrema, real. Ele passa um ano convivendo com os personagens, rendendo-se às cores de suas histórias, aos sons de suas narrativas tristes, aos cheiros fortes de comida podre, aos tons do cotidiano amargo. Trinta anos depois, o resultado em óleo sobre tela era exposto em uma conhecida universidade, causava náuseas e gerava espanto.

A história é real. Quem entrar no Museu de Arte da UFC (MAUC) até o dia 30 deste mês pode comprovar: a cidade é Fortaleza, o ano é 1980, o lugar era o Aterro do Jangurussu e os desconhecidos misturados ao lixo, agora, nos quadros, têm nome.

Pelos traços quase artesanais do pintor cearense Descartes Gadelha, o visitante é convidado a deixar a ilusão abstrata e descortinar a realidade concreta dos que sobreviviam do lixo.

A exposição Catadores do Jangurussu, em cartaz desde o dia 18 de outubro como programação integrada ao III Festival UFC de Cultura, apresenta um aterro de lixo que já não existe. Biografias de pessoas que não viveram até hoje. Mas, apesar de estar desativado desde 1998, o lixão pintado, desenhado e descrito pelas mãos expressionistas do artista parece vivíssimo.

A mostra revela que as mazelas presenciadas por Descartes Gadelha durante o ano em que viveu no Jangurussu rendeu-lhe muito mais que quadros. Numa espécie de “diário de bordo”, ou de obras, ele conta as histórias por trás das telas: as motivações para retratar este ou aquele catador, as vivências cotidianas, as reflexões durante o processo de produção. Os escritos aproximam ainda mais o espectador da obra contemplada.

Em 1989 o trabalho já havia tido 34 de seus quadros expostos no mesmo MAUC. Desta vez, segundo o curador da exposição e diretor do museu, Pedro Eymar, o conjunto de 70 quadros em óleo sobre tela ocupa seis salas e traz a obra de um pintor que se autodenomina “maduro”.

Mas como uma obra realizada há trinta anos, passando por sua segunda exposição, pode ter amadurecido? A própria distribuição das obras reflete a evolução do trabalho solidificado pelo tempo, como se os quadros inéditos fossem frutos esperando o momento certo para serem colhidos.

A mostra recepciona o visitante com o Olhar do catador, como na tela Olhos do lixo.

Olhos do lixo

Outro espaço monta um tipo de Geografia do lixo, com quadros de perspectivas mais amplas do ambiente, proporcionando uma visão do que era o aterro do Jangurussu. É lá que está o quadro Pôr do Sol atrás da rampa, que sintetiza o começo e o desenrolar desse trabalho de Gadelha.

As duas maiores salas da exposição carregam o contraste: uma traz obras de cores vivas, a outra de cores cruas retrata cenas fortes. Para Eymar, “a Sala dos Urubus [como é chamada a segunda] é a das obras mais pesadas”, mas é a que mostra como “o domínio da composição é simbólico e muito sólido, realista”.

Os retratos enveredam por todos ambientes. Conhece-se se o lixão por meio de personagens como Dona Lindomar, a asmática tuberculosa que, evangélica, acreditava na cura porque pagava o dízimo do que ganhava com o lixo;

Dona Lindomar

ou como o Menino do Buraco, que era assim chamado porque nasceu num orifício.

Menino do Buraco

Além dos 53 desenhos misturados às telas, exibindo não apenas o esboço, mas o processo pelo qual o artista concebe a obra, a exposição apresenta um vídeo com imagens do Jangurussu retratado por Gadelha e do que se tornou esse lugar, ainda marcado pela poluição, mas menos degradante.

Para Pedro Eymar, visitar os Catadores do Jangurussu “não é uma forma de deleite estético”. De fato, o trabalho de Gadelha não se preocupa em proporcionar prazer artístico a quem o procura. A imersão feita pelo pintor e magistralmente transmitida nas pinceladas de cada tela, no volume de cada forma, na veracidade de cada olhar, é um mergulho na profundidade das misérias possíveis da vida. Um convite audacioso de um artista acostumado a encarar a arte e torná-la real. Ou o contrário.

Corre, ainda dá tempo!

Exposição Catadores do Jangurussu, de Descartes Gadelha

Onde?

Museu de Arte da UFC

Av. da Universidade, 2854, Fortaleza – Ce
Tel: (85) 3366-7481
Horário de visitação:
Segunda a sexta-feira, de 8h às 12h e de 14h às 18h

Quando?

A exposição começou no dia 18 de outubro, mas vai até o dia 30 de novembro

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